A crise da entrevista de estágio

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A situação toda começou quando eu estava no primeiro ano de faculdade.

Queria começar um estágio, mas como ainda estava no início do curso, era bem difícil conseguir sequer uma entrevista nos processos seletivos. A maior parte dos lugares em que deixei meu currículo afirmava que precisavam de estagiários com experiência prévia.
Gente, como é que uma pessoa que está procurando estágio vai ter experiência prévia? Eu pensava que estágio era justamente para ganhar experiência!

Depois de algumas semanas sem conseguir nada, cheguei ao ponto em que qualquer vaga que me oferecessem, eu aceitaria, mesmo que fosse para trabalhar de graça. O que queria mesmo era uma chance de conseguir a tal da “experiência prévia” para poder, depois quem sabe, conseguir uma colocação melhor.

Um dia, meu celular tocou. Era uma das empresas em que eu havia deixado meu currículo. Marquei a entrevista para o mesmo dia.

Ao chegar à empresa, a recepcionista me levou até uma sala com algumas cadeiras enfileiradas e um punhado de gente sentada. Procurei a cadeira vazia mais próxima e me acomodei. Eu estava calma, até perceber que todas aquelas pessoas também estavam alí esperando para fazer a entrevista. A partir do momento em que entendi aquilo, minhas mãos começaram a suar, a boca ficou seca e me deu uma tremenda vontade de fazer xixi. Estava me levantando para ir ao banheiro quando chamaram meu nome. Dei meia volta e segui a moça até uma sala no fundo do corredor. Ela abriu a porta e eu entrei.

Um homem de aparência asiática estava sentado atrás de uma mesa cheia de papéis. Dirigi-me até a mesa e cumprimentei-o. O homem respondeu, num tom bastante formal, alguma coisa que não entendi muito bem, pois ele tinha um acentuado sotaque, acredito que ele era chinês.
*Que fique registrado aqui que isso não é preconceito, é apenas um fato que ocorreu. Até porque, eu mesma sou descendente de asiáticos.

O homem começou a fazer algumas perguntas. No geral, estava correndo tudo bem. Às vezes ele dizia uma coisa ou outra que eu não compreendia devido ao seu sotaque, mas, na maior parte das vezes, eu conseguia deduzir o sentido das frases pelo contexto da conversa.

Já no finzinho da entrevista ele perguntou se eu tinha alguma referência de ex-chefes para quem ele pudesse ligar e perguntar como eu era como funcionária. Expliquei que nunca havia trabalhado até então. Ele disse “ok.” Com isso, achei que a entrevista havia acabado, já ia me levantando da cadeira quando ele perguntou: “- Mas e o Holalio?”. Eu repeti: “- Holalio?”. Ele respondeu: “- É, o Holalio”. Pensei – mas eu acabei de dizer que não tenho referências de ex-chefes, muito menos desse tal de Holalio!”. Aí, falei, da maneira mais simpática possível: “- Não, não conheço nenhum Holalio.”. Ele respondeu balançando a cabeça: “- No, no, no, no, no, no. O Holalio!”. Eu respondi: “- Hã?…”. Ele: “- HO-LA-LI-O”. Eu: “- É, não conheço não…”. Ele, já sem paciência, repetiu: “- HO-LA-LI-O!!!”. Enquanto eu me preparava para dizer “Desculpe, não estou entendendo.” ele se antecipou e foi dizendo “- Ah, deixa, deixa.” e me tocou até a porta.

Fui andando pelo corredor meio desnorteada, sem entender o que havia acontecido. Quem era esse tal de Holalio? Por que ele ficou tão indignado e irritado por eu não conhecer o Holalio? Peguei o ônibus de volta para a casa e fui pensando durante o caminho todo, por que era tão importante o tal do Holalio. Desci no ponto perto de casa. Dei uns dez passos enquanto pensava: “Poxa, estava indo tão bem, mesmo com aquele sotaque chinês eu estava entendendo tudinho, tinha conseguido responder todas as perguntas…” . Até que, nesse momento, tive o momento de grande revelação: “ Holalio… Holalio… HORÁRIO! HORÁRIO! Ele estava me perguntando sobre o horário de trabalho!

E foi assim que eu perdi minha primeira oportunidade de conseguir um estágio.

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